Thursday, January 17, 2008

Lisboa, Ray Charles & Taxistas

Aprecio os taxistas de Lisboa. São animados, conversadores e bem informados. Dias antes das eleições legislativas de Fevereiro de 2005, comentaristas de jornais e de televisão davam como garantida a vitória eleitoral do Partido Socialista. Duvidavam, porém, da conquista da maioria absoluta.Já os taxistas não. Davam como certa à vitória esmagadora dos socialistas, e garantiam mais: taxas de abstenção das mais baixas de sempre e o pior resultado do Partido Social Democrata (PSD) de todos os tempos. Foi o que aconteceu.Ontem apanhei um táxi à saída do cinema, depois de ter visto um filme sobre a vida de Ray Charles. O motorista, que estava a ouvir “Georgia in my mind”, descreveu-me com paixão os mais emblemáticos sucessos de um dos maiores ícones da música negra dos Estados Unidos. O talento de Charles, dizia, é uma criação de Deus, que pretendia, assim, tornar o mundo mais feliz.Depois da animada conversa com o taxista fiquei completamente só, num quarto frio de uma simpática pensão da baixa lisboeta. Afinal gostaria de ter visto o filme com os meus amigos de Luanda. Certamente, depois do cinema, teríamos ficado horas a falar do movimento negro dos EUA, da contribuição do jazz à cultura musical mundial.Falaríamos também da boa música angolana, da bossa nova brasileira e das vozes emergentes da diáspora africana de Paris. Mas tal não aconteceu. Fiquei só, mergulhado no mais completo vazio. À noite, embalado por “Georgia in my mind”, lendária canção de Ray Charles, dormi profundamente e ao longe ouvia a voz terna de um lisboeta amante de jazz.É por isso que gosto dos taxistas de Lisboa. Têm alma e poesia. São profundos, extremamente profundos.
Aprecio os taxistas de Lisboa. São animados, conversadores e bem informados. Dias antes das eleições legislativas, comentaristas de jornais e de televisão davam como garantida a vitória eleitoral do Partido Socialista. Duvidavam, porém, da conquista da maioria absoluta.Já os taxistas não. Davam como certa à vitória esmagadora dos socialistas, e garantiam mais: taxas de abstenção das mais baixas de sempre e o pior resultado do Partido Social Democrata (PSD) de todos os tempos. Foi o que aconteceu.Ontem apanhei um táxi à saída do cinema, depois de ter visto um filme sobre a vida de Ray Charles. O motorista, que estava a ouvir “Georgia in my mind”, descreveu-me com paixão os mais emblemáticos sucessos de um dos maiores ícones da música negra dos Estados Unidos. O talento de Charles, dizia, é uma criação de Deus, que pretendia, assim, tornar o mundo mais feliz.Depois da animada conversa com o taxista fiquei completamente só, num quarto frio de uma simpática pensão da baixa lisboeta. Afinal gostaria de ter visto o filme com os meus amigos de Luanda. Certamente, depois do cinema, teríamos ficado horas a falar do movimento negro dos EUA, da contribuição do jazz à cultura musical mundial.Falaríamos também da boa música angolana, da bossa nova brasileira e das vozes emergentes da diáspora africana de Paris. Mas tal não aconteceu. Fiquei só, mergulhado no mais completo vazio. À noite, embalado por “Georgia in my mind”, lendária canção de Ray Charles, dormi profundamente e ao longe ouvia a voz terna de um lisboeta amante de jazz.É por isso que gosto dos taxistas de Lisboa. Têm alma e poesia. São profundos, extremamente profundos.

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