Thursday, January 17, 2008

Pinceladas da Cidade de Cabo para a amiga Sueli Nunes

Situada no extremo sul da África do Sul,a cidade do Cabo está ligada a factores históricos desde longa data.Deve o seu nome ao navegador português que pela primeira vez circum-navegou o continente em busca da rota para a Índia. Hoje é do Cabo que se parte para ir a Roben Island,a ilha em que esteve o preso mais famoso do mundo:Nelson Mandela.A cidade sul-africana do Cabo consta da selecta lista das cinco mais belas do mundo do Guinnes book, o livro dos recordes.Por isso,Nicole Brown, uma simpática inglesa de 28 anos,decidiu visitá-la. Da lista das mais belas cidades do livro dos recordes constam ainda metrópoles como Sidney (Austrália), Rio de Janeiro (Brasil) e San Francisco (EUA)."O Cabo é a mais linda de todas",avalia Nicole,com um largo sorriso a enfeitar os olhos. Apelidada de cidade-mãe dos sul-africanos, a Cidade do Cabo é marcada por uma fusão de culturas,o que dá um colorido interessante à região. Aliás,cor e diversidade são dos aspectos mais marcantes da cultura da África do Sul,como diz Tarissa Guimarães,turista brasileira.Um pouco de históriaA origem do nome da cidade é curiosa. Deriva do termo "Cabo das Tormentas",dado pelo navegador português Bartolomeu Dias que, a caminho das índias,enfrentara uma feroz tempestade em alto mar.Tempos depois,a cidade passou a chamar-se "Cabo da Boa Esperança", como um sinal de prosperidade e bem-estar quando os navegantes avistavam a partir do alto mar o ponto mais alto da Table Mountain (Montanha da Mesa). É algo que ainda é possível sentir-se hoje,quando se chega ao cume dessa montanha,de aproximadamente mil e 86 metros de altura.Tarissa,turista brasileira,diz que nunca tinha contemplado uma vista tão bela. Trata-se de um espaço que possibilita contemplar toda a cidade e até ver o local em que barcos lusitanos foram engolidos pelo mar. Michael Bettencourt, turista inglês, relata que as emoções que viveu ao contemplar a Cidade do Cabo a partir da Table Mountain sentiu apenas no Rio de Janeiro. "A semelhança entre estas duas cidades",avalia, "é impressionante".Turismo,segurança e vinhoConsiderada uma das cidades mais seguras da África do Sul, é uma zona fortemente marcada pela colonização holandesa e, posteriormente, inglesa. Beleza e segurança fazem desta cidade a preferida de parte significativa dos mais de cinco milhões de turistas que visitam anualmente o país.Com isso,nos locais mais frequentados por turistas é frequente ouvir quatro ou cinco línguas diferentes. Tal particularidade confere uma atmosfera ao Cabo semelhante à de Nova Iorque, considera a estudante japonesa Nashiro Honda, 18 anos, que visita a região pela terceira vez, em dois anos. "Amo este pedaço de chão", explicaA zona de Stellenbosch é também um ponto turístico da cidade recomendável.Steve Holomisa, guia turístico do Hotel "Table Bay",diz que a Cidade Universitária de Cape Town é uma das referências da região,já que é contígua a famosas fazendas de uva,as winelands (terras do vinho). Trata-se de uma zona segura por onde vale a pena passear a pé,segundo recomendam os habitantes locais.Entre as sugestões consta, é claro, uma visita a uma das vinícolas e poder, assim, não apenas saber como o vinho é produzido e engarrafado, mas também conhecer melhor o seu sabor, pois o périplo dá direito à mesa de prova dos produtos (wine taste).Aliás,a produção vinícola da Cidade do Cabo é de referência mundial pelos vinhos que exporta, de uma qualidade garantida por técnicas de cultivo e de produção modernos, sustentadas por uma tradição de mais de 300 anos. EM BUSCA DA MÚSICAA vida nocturna da cidade é também bastante envolvente.Não há apenas pontos bucólicos e idílicos para visitar.A Long street é a rua da desbunda,como define Carlos Jorge, um angolano que estuda na África do Sul.Albergues, bares, clubes nocturnos, restaurantes,lojas e jazz ao ar livre são alguma das atracções.Um dado curioso é a paixão que a música popular brasileira começa a despertar na África do Sul, em alguns segmentos da população, com tendência de expansão.Trata-se de um fenómeno novo,diz uma jovem estudante que partilhou connosco uma mesa de um bar,onde eram passados temas musicais de Jorge Ben,Carlinhos Brown,Marisa Monte e Caetano Veloso. Emocionada, uma família de turistas brasileiros escutava os seus patrícios,degustando seafood, uma delícia local de frutos do mar.Outra atracção é o aquário(Two Oceans Aquarium).É simplesmente impressionante:tem mais de quatro mil criaturas,representando centenas de espécies. É possível ver temíveis tubarões e também simpáticos golfinhos.Na zona nordeste da cidade,há várias colónias de pinguins, uma espécie de ave, animais meio desengonçados típicos das regiões geladas.Aliás, o frio é simplesmente de rachar na Cidade do Cabo nesta época do ano.O Victoria & Alfred Waterfront é outra das grandes referências da cidade. Trata-se de um espaço restaurado ao lado das docas de um porto. O local alberga um complexo de lazer com inúmeras opções de lojas,cafés,cinemas, restaurantes e museus,absorvendo uma circulação de moradores e turistas,quase ininterrupta.Em Waterfront está também o famoso Table Bay Hotel,que tem na sua carteira de clientes pessoas como Nelson Mandela,Naomy Campebel,Bill Gates, Robert de Niro e Madaleine Albright, antiga secretária de Estado dos EUA.A história de Waterfront remonta a 1860, quando o príncipe Alfred,segundo filho da rainha Victoria,colocou a primeira pedra para a construção de uma barreira de protecção nas águas do mar da Cidade do Cabo. Desta zona,é possível apanhar uma embarcação para visitar um dos mais importantes lugares históricos da África do Sul,elevado à monumento nacional: a ilha Robben Island,uma antiga prisão de oponentes ao regime do Apartheid,que tornou-se notória por nela ter estado preso Nelson Mandela durante mais de 20 anos.Waterfront é também ponto de partida para passeios de lancha ao longo do dia. Mas é principalmente à hora do pôr-do-sol que se torna num local mágico. Com cerca de 80 rands é possível passear de lancha e degustar um bom prato de frutos do mar,regado com champanhe.O passeio é acompanhado de perto por focas,que nesta altura do ano são uma presença constante.

Portadores de deficiência, comunicação social e inclusão social

Angola tem das mais altas taxas de deficientes físicos no mundo. Calcula-se que a percentagem de portadores de deficiência seja superior a 15 por cento da população, principalmente devido à guerra que dilacerou o país.Daí a necessidade de o Estado adoptar políticas que permitam atenuar os actuais índices de exclusão social dos portadores de deficiência física. Afinal, não é possível obter ganhos de estabilidade social, com um elevado número de excluídos. E de instabilidade, convenhamos, estamos conversados. Aliás, a história recente do país fala por si.A tarefa de sensibilização da sociedade sobre esta pro-blemática deve ter como um dos principais actores a comunicação social, devido à sua capacidade de influenciar decisões e comportamentos.A execução de políticas e acções práticas capazes de gerar um envolvimento sistemático dos principais órgãos de soberania é uma necessidade urgente. Neste capítulo, a comunicação social deve ter uma atitude que leve o Estado a eleger o estabelecimento de políticas viáveis de inclusão social dos portadores de deficiência como uma questão de segurança nacional, de garantia de estabilidade.Contudo, é preciso levantar adequadamente esta pro-blemática, que tem um elevado pendor humanitário e de cidadania, de modo a não ser utilizada por grupos interessados, apenas, em obter de dividendos políticos e económicos.Apenas uma acção concertada e consequente do Estado poderia desestimular acções perniciosas junto deste segmento da população que, devido à sua vulnerabilidade, pode facilmente ser instigado à prática de actos de insubordinação social.Por outro lado, afigura-se como necessidade primária a aprovação de leis que estimulem a diminuição progressiva das chamadas barreiras arquitectónicas e urbanísticas, que são autênticos inibidores do direito de livre circulação dos portadores de deficiência.Assim, seria possível fazer com que os actuais projectos de reabilitação e construção de infra-estruturas, escolas, hospitais e de novas urba-nizações, tivessem como parâmetros de construção a observância de regras que atenuassem as chamadas barreiras arquitectónicas e urbanísticas.

Lisboa, Ray Charles & Taxistas

Aprecio os taxistas de Lisboa. São animados, conversadores e bem informados. Dias antes das eleições legislativas de Fevereiro de 2005, comentaristas de jornais e de televisão davam como garantida a vitória eleitoral do Partido Socialista. Duvidavam, porém, da conquista da maioria absoluta.Já os taxistas não. Davam como certa à vitória esmagadora dos socialistas, e garantiam mais: taxas de abstenção das mais baixas de sempre e o pior resultado do Partido Social Democrata (PSD) de todos os tempos. Foi o que aconteceu.Ontem apanhei um táxi à saída do cinema, depois de ter visto um filme sobre a vida de Ray Charles. O motorista, que estava a ouvir “Georgia in my mind”, descreveu-me com paixão os mais emblemáticos sucessos de um dos maiores ícones da música negra dos Estados Unidos. O talento de Charles, dizia, é uma criação de Deus, que pretendia, assim, tornar o mundo mais feliz.Depois da animada conversa com o taxista fiquei completamente só, num quarto frio de uma simpática pensão da baixa lisboeta. Afinal gostaria de ter visto o filme com os meus amigos de Luanda. Certamente, depois do cinema, teríamos ficado horas a falar do movimento negro dos EUA, da contribuição do jazz à cultura musical mundial.Falaríamos também da boa música angolana, da bossa nova brasileira e das vozes emergentes da diáspora africana de Paris. Mas tal não aconteceu. Fiquei só, mergulhado no mais completo vazio. À noite, embalado por “Georgia in my mind”, lendária canção de Ray Charles, dormi profundamente e ao longe ouvia a voz terna de um lisboeta amante de jazz.É por isso que gosto dos taxistas de Lisboa. Têm alma e poesia. São profundos, extremamente profundos.
Aprecio os taxistas de Lisboa. São animados, conversadores e bem informados. Dias antes das eleições legislativas, comentaristas de jornais e de televisão davam como garantida a vitória eleitoral do Partido Socialista. Duvidavam, porém, da conquista da maioria absoluta.Já os taxistas não. Davam como certa à vitória esmagadora dos socialistas, e garantiam mais: taxas de abstenção das mais baixas de sempre e o pior resultado do Partido Social Democrata (PSD) de todos os tempos. Foi o que aconteceu.Ontem apanhei um táxi à saída do cinema, depois de ter visto um filme sobre a vida de Ray Charles. O motorista, que estava a ouvir “Georgia in my mind”, descreveu-me com paixão os mais emblemáticos sucessos de um dos maiores ícones da música negra dos Estados Unidos. O talento de Charles, dizia, é uma criação de Deus, que pretendia, assim, tornar o mundo mais feliz.Depois da animada conversa com o taxista fiquei completamente só, num quarto frio de uma simpática pensão da baixa lisboeta. Afinal gostaria de ter visto o filme com os meus amigos de Luanda. Certamente, depois do cinema, teríamos ficado horas a falar do movimento negro dos EUA, da contribuição do jazz à cultura musical mundial.Falaríamos também da boa música angolana, da bossa nova brasileira e das vozes emergentes da diáspora africana de Paris. Mas tal não aconteceu. Fiquei só, mergulhado no mais completo vazio. À noite, embalado por “Georgia in my mind”, lendária canção de Ray Charles, dormi profundamente e ao longe ouvia a voz terna de um lisboeta amante de jazz.É por isso que gosto dos taxistas de Lisboa. Têm alma e poesia. São profundos, extremamente profundos.

A rua lisboeta de Angola

"A Avenida Almirante Reis tem tudo que um repórter angolano em Lisboa precisa: pensões e restaurantes a preço camarada, casas de câmbio e internet barata.
Contígua à Almirante Reis está a Rua de Angola, espaço aprazível, com restaurantes, cafés e livrarias. Tem também imponentes casarões, símbolos da rica arquitectura colonial portuguesa.
Ao lado, pedreiros angolanos trabalham na reforma de um prédio centenário, provavelmente construído com dinheiro de antigos barões do café da então colónia de Angola.Num dos restaurantes, uma menina loirinha desperta à minha atenção com afectuoso beijo no rosto. Pouco depois, um canto harmonioso e melancólico penetra de mansinho no espaço.
São os pedreiros a cantar Muxima, canção popular angolana eternizada pelo N'gola Ritmos. Com isso, silenciam dois cabo-verdianos e um brasileiro, que falavam animadamente de Filipe Mukenga e Teta Lando, dois talentos da música angolana.
Assim, germinava um pedaço da alma da gente na Rua de Angola, via contígua à Almirante Reis, uma graciosa avenida da baixa lisboeta."

Wednesday, February 7, 2007

Homenagear Savimbi é aclamar mortes e destruições



“Angola sabe da sua própria experiência, como um homem, um único homem, pode provocar um sofrimento incalculável que vai para além de qualquer razão, senão a de procurar de forma desumana satisfazer a sua ambição pelo poder. E, Angola sabe quão rápida a paz pode ser abençoado uma vez que este homem é eliminado”
Christopher Dell, antigo embaixador dos EUA em Angola.
Raimundo Salvador

Há 20 anos Savimbi dirigiu um dos seus actos mais macabros na Jamba, seu antigo quartel-general. De lenço vermelho enrolado ao pescoço, farda verde e pistola à cintura, o líder da Unita lançava à fogueira dezenas de mulheres e respectivos filhos.
Os nomes das desafortunadas eram anunciados pela tenebrosa voz de Jonas Savimbi. Pouco depois, mulheres e crianças, arrastadas por soldados armados, ardiam em chamas flamejantes.
A morte de Vitória, uma bela jovem benguelense, marcou de forma significativa os espectadores de tão triste teatro. Perante a iminência da morte, Vitória dispensou que fosse arrastada por soldados, dirigiu-se ao fogo com os próprios pés e lançou-se, sendo aí consumida pelas chamas até às cinzas. A jovem não soltou um único grito e, ante o fatídico momento, fitou o líder da Unita e profetizou: Tu não vais vencer e o teu fim será triste.
No dia 22 de Fevereiro de 2002, Jonas Savimbi é crivado de balas disparadas por homens de uma unidade de elite das Forças Armadas Angolanas e da Polícia Nacional. Cumpria-se, assim, a profecia de Vitória, 19 anos depois.
Há dias, os Soares & companhia lançaram, em Portugal, um livro que elogia feitos de Jonas Savimbi. Quase ao mesmo tempo, em Luanda, a Comissão Política da Unita organizou uma cerimónia de homenagem ao seu “mano mais velho”.
A cerimónia de Luanda e o lançamento do livro em Lisboa contaram com a intervenção e o apoio de conhecidos “defensores” dos direitos humanos em Angola, como de Rafael Marques, Vicente Pinto de Andrade, Justino Pinto de Andrade e Carlinhos Zassala. Nestes actos foram enaltecidos feitos de um homem que queimou crianças em fogueiras, abriu à baioneta ventre de mulheres grávidas, destruiu cidades, vilas, escolas, fábricas, estradas...
Homenagear Savimbi é derramar lágrimas de crocodilo sobre as cinzas de crianças, mulheres e outros inocentes que arderam nas fogueiras da Jamba, no comboio de Zenza do Itombe e não só. E quando gestos destes engajam portugueses, demonstra bem a cumplicidade na morte de compatriotas seus em vários pontos de Angola, cuja memória mais recente é da família Viola, no Ambriz. Mais argumentos, seria exercício de mera retórica, diante da perversidade dos crimes cometidos. Savimbi incentivou o seu exército a destruir pontes, atacar cidades e, nos últimos tempos, a massacrar todos os estrangeiros que fossem capturados. Provas irrefutáveis foram divulgadas através de cassetes de vídeo apreendidas pelas FAA.
Por isso, os actos de alguns dos “nossos” mais mediáticos humanistas, dentre os quais o economista e sociólogo Vicente Pinto de Andrade e o seu irmão Justino, resvalam dos princípios por que dizem pugnar.
Aliás, Justino Pinto de Andrade foi o primeiro a exaltar a memória de Jonas Savimbi após a sua morte, num espaço de crónicas que subscreve na Rádio Eclésia. Tratou-se de uma demonstração de afecto por um homem que violou dois acordos de paz, dizimou a família Chinguji e pactuou com o regime do apartheid da África do Sul.
Por isso, faço minha a posição de um intelectual português que classifica a morte de Jonas Savimbi como uma verdadeira tragédia, porque deveria ter acontecido 30 anos antes do dia 22 de Fevereiro de 2002.
Ainda hoje, o choro de mulheres e crianças a arder em chamas na Jamba, ecoa nos ouvidos das pessoas de bem que assistiram à carnificina. Mas não é suficiente para tocar a sensibilidade de alguns dos nossos “defensores” dos direitos humanos.
Quanto cinismo, meu Deus!



Raimundo Salvador *
“Angola sabe da sua própria experiência, como um homem, um único homem, pode provocar um sofrimento incalculável que vai para além de qualquer razão, senão a de procurar de forma desumana satisfazer a sua ambição pelo poder. E, Angola sabe quão rápida a paz pode ser abençoado uma vez que este homem é eliminado”
Christopher Dell, antigo embaixador dos EUA em Angola.

Há 20 anos Savimbi dirigiu um dos seus actos mais macabros na Jamba, seu antigo quartel-general. De lenço vermelho enrolado ao pescoço, farda verde e pistola à cintura, o líder da Unita lançava à fogueira dezenas de mulheres e respectivos filhos.
Os nomes das desafortunadas eram anunciados pela tenebrosa voz de Jonas Savimbi. Pouco depois, mulheres e crianças, arrastadas por soldados armados, ardiam em chamas flamejantes.
A morte de Vitória, uma bela jovem benguelense, marcou de forma significativa os espectadores de tão triste teatro. Perante a iminência da morte, Vitória dispensou que fosse arrastada por soldados, dirigiu-se ao fogo com os próprios pés e lançou-se, sendo aí consumida pelas chamas até às cinzas. A jovem não soltou um único grito e, ante o fatídico momento, fitou o líder da Unita e profetizou: Tu não vais vencer e o teu fim será triste.
No dia 22 de Fevereiro de 2002, Jonas Savimbi é crivado de balas disparadas por homens de uma unidade de elite das Forças Armadas Angolanas e da Polícia Nacional. Cumpria-se, assim, a profecia de Vitória, 19 anos depois.
Há dias, os Soares & companhia lançaram, em Portugal, um livro que elogia feitos de Jonas Savimbi. Quase ao mesmo tempo, em Luanda, a Comissão Política da Unita organizou uma cerimónia de homenagem ao seu “mano mais velho”.
A cerimónia de Luanda e o lançamento do livro em Lisboa contaram com a intervenção e o apoio de conhecidos “defensores” dos direitos humanos em Angola, como de Rafael Marques, Vicente Pinto de Andrade, Justino Pinto de Andrade e Carlinhos Zassala. Nestes actos foram enaltecidos feitos de um homem que queimou crianças em fogueiras, abriu à baioneta ventre de mulheres grávidas, destruiu cidades, vilas, escolas, fábricas, estradas...
Homenagear Savimbi é derramar lágrimas de crocodilo sobre as cinzas de crianças, mulheres e outros inocentes que arderam nas fogueiras da Jamba, no comboio de Zenza do Itombe e não só. E quando gestos destes engajam portugueses, demonstra bem a cumplicidade na morte de compatriotas seus em vários pontos de Angola, cuja memória mais recente é da família Viola, no Ambriz. Mais argumentos, seria exercício de mera retórica, diante da perversidade dos crimes cometidos. Savimbi incentivou o seu exército a destruir pontes, atacar cidades e, nos últimos tempos, a massacrar todos os estrangeiros que fossem capturados. Provas irrefutáveis foram divulgadas através de cassetes de vídeo apreendidas pelas FAA.
Por isso, os actos de alguns dos “nossos” mais mediáticos humanistas, dentre os quais o economista e sociólogo Vicente Pinto de Andrade e o seu irmão Justino, resvalam dos princípios por que dizem pugnar.
Aliás, Justino Pinto de Andrade foi o primeiro a exaltar a memória de Jonas Savimbi após a sua morte, num espaço de crónicas que subscreve na Rádio Eclésia. Tratou-se de uma demonstração de afecto por um homem que violou dois acordos de paz, dizimou a família Chinguji e pactuou com o regime do apartheid da África do Sul.
Por isso, faço minha a posição de um intelectual português que classifica a morte de Jonas Savimbi como uma verdadeira tragédia, porque deveria ter acontecido 30 anos antes do dia 22 de Fevereiro de 2002.
Ainda hoje, o choro de mulheres e crianças a arder em chamas na Jamba, ecoa nos ouvidos das pessoas de bem que assistiram à carnificina. Mas não é suficiente para tocar a sensibilidade de alguns dos nossos “defensores” dos direitos humanos.
Quanto cinismo, meu Deus!